
Há algo profundamente simbólico nesta espécie de diálogo silencioso da fotografia, entre o moderno edifício e o antigo poste-candelabro no viaduto Santa Efigênia, no centro da cidade de São Paulo.
A própria estética da modernidade do edifício revela as linhas retas, as janelas padronizadas, os aparelhos de ar-condicionado pendurados. Tudo muito prático, objetivo, funcional, quase impessoal. A foto nos lembra uma colmeia humana vertical e massificada.
O poste-candelabro, porém, vem de outro tempo. Seu desenho possui ornamento. Há delicadeza em suas curvas. Ele carrega uma memória de cidade mais humana, onde até os objetos urbanos inspiravam beleza, não apenas função.
O mais interessante é que os dois coexistem sem conflito. O poste-candelabro não rejeita o edifício. O edifício não elimina o poste-candelabro. Ambos permanecem lado a lado, como se a fotografia nos lembrasse que tradição e modernidade não precisam ser inimigas.
A questão nunca foi o novo existir. O problema surge quando o novo acredita que só ele merece permanecer. Cometemos dois erros: um, em pensar que tradição é atraso que só o moderno é bom; o outro erro é pensar que tradição é prisão e, assim rejeitar qualquer tipo de mudança.
Essa fotografia revela tempos diferentes. Ninguém é feito apenas de novidade. Somos formados por camadas de tempo. Carregamos dentro de nós a criança que fomos, as vozes dos nossos pais, as músicas antigas, os livros que nos marcaram, as orações da infância e também os medos modernos, as tecnologias recentes, as dores contemporâneas.
A beleza da imagem está justamente no que ela nos conta sobre a maturidade cultural e o respeito geracional, ou seja, é possível crescer sem apagar a origem de nossa existência.
Somos edifício e poste ao mesmo tempo.
Talvez por isso a imagem provoque tanto silêncio interior. Ela sugere que a verdadeira sabedoria não está em destruir o antigo para celebrar o novo, nem em rejeitar o novo para preservar o antigo.
A sabedoria está em permitir que ambos conversem, se respeitem e existam!
de: Carlos Barabás
Em Lentes e Linhas, cada imagem captura mais do que simples cenários, são fragmentos de histórias, silêncios e vozes que se entrelaçam nos mais diversos cenários do cotidiano. Com um olhar poético, crítico e significativo, desejo provocar reflexões e convidar os leitores a enxergar além do óbvio, a sentir o pulsar invisível das ruas e avenidas e cenários que minha lente registrou.
Lentes e Linhas; a imagem sustenta o texto e o texto amplia a imagem – Carlos Barabás
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