Tempos diferentes!

Lentes e linhas- “Tempos diferentes!” – Fotografia: Carlos Barabás (2023).

Há algo profundamente simbólico nesta espécie de diálogo silencioso da fotografia, entre o moderno edifício e o antigo poste-candelabro no viaduto Santa Efigênia, no centro da cidade de São Paulo.

A própria estética da modernidade do edifício revela as linhas retas, as janelas padronizadas, os aparelhos de ar-condicionado pendurados. Tudo muito prático, objetivo, funcional, quase impessoal. A foto nos lembra uma colmeia humana vertical e massificada.

O poste-candelabro, porém, vem de outro tempo. Seu desenho possui ornamento. Há delicadeza em suas curvas. Ele carrega uma memória de cidade mais humana, onde até os objetos urbanos inspiravam beleza, não apenas função.

O mais interessante é que os dois coexistem sem conflito. O poste-candelabro não rejeita o edifício. O edifício não elimina o poste-candelabro. Ambos permanecem lado a lado, como se a fotografia nos lembrasse que tradição e modernidade não precisam ser inimigas.

A questão nunca foi o novo existir. O problema surge quando o novo acredita que só ele merece permanecer. Cometemos dois erros: um, em pensar que tradição é atraso que só o moderno é bom; o outro erro é pensar que tradição é prisão e, assim rejeitar qualquer tipo de mudança.

Essa fotografia revela tempos diferentes. Ninguém é feito apenas de novidade. Somos formados por camadas de tempo. Carregamos dentro de nós a criança que fomos, as vozes dos nossos pais, as músicas antigas, os livros que nos marcaram, as orações da infância e também os medos modernos, as tecnologias recentes, as dores contemporâneas.

A beleza da imagem está justamente no que ela nos conta sobre a maturidade cultural e o respeito geracional, ou seja, é possível crescer sem apagar a origem de nossa existência.

Somos edifício e poste ao mesmo tempo.

Talvez por isso a imagem provoque tanto silêncio interior. Ela sugere que a verdadeira sabedoria não está em destruir o antigo para celebrar o novo, nem em rejeitar o novo para preservar o antigo.

A sabedoria está em permitir que ambos conversem, se respeitem e existam!

de: Carlos Barabás

Leia também: Entre o Aço e o Concreto – Crônica fotográfica

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Carlos Barabás
Carlos Barabás
Carlos Barabás é doutorando e mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), com pesquisas voltadas ao neuroempreendedorismo, inovação, criatividade, sustentabilidade e comportamento humano. Especialista em Neurociência e Educação, graduado em Ciências Sociais e com formação teológica, atua como pesquisador do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento de Ritmos Biológicos (GMDRB) da USP, pastor da Igreja Cristã do Farol, em São Paulo/SP, e sócio-diretor da Lighthouse – Centro de Estudos Multidisciplinares Ltda.
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