Quando enfrentamos nossos próprios desertos!

Essas palavras foram ditas por Davi em um dos momentos mais tristes e difíceis de sua vida. Ele se encontrava no deserto de Judá, provavelmente refugiando-se da perseguição de seu próprio filho, Absalão, que conspirava para tomar o trono. Era um tempo de fragilidade, insegurança e muita decepção.

O deserto, com sua dureza, solidão e aridez, refletia o estado interior de Davi, que tomava a condição daquele lugar como metáfora da própria alma. Assim como o solo seco, rachado e sem vida, ele reconhecia que, longe da presença de Deus, também se tornaria uma terra esgotada, sem forças e incapaz de produzir vida. Uma terra clamando por água.

E é justamente nesse cenário árido e inóspito que se torna evidente que Davi desejava uma água que saciasse não apenas o corpo, mas também a alma.

Aquela realidade poderia se transformar em palco de muitas lamentações, revoltas e queixas; no entanto, Davi não repetiu o comportamento dos hebreus que, ao deixarem o Egito, murmuraram contra Deus, desejaram voltar à escravidão e transformaram o deserto em um lugar de muitas reclamações contra Deus e Moisés (essa história é narrada no livro de Êxodo).

Enquanto os hebreus endureceram o coração pela escassez e pelas lembranças do Egito, Davi se moveu pelo profundo desejo que tinha por Deus, não de conforto, mas da Sua presença.

Em vez de reclamar da ausência, ele transformou o deserto em altar, reconhecendo que a verdadeira água que saciaria sua alma não era física, mas espiritual.

Existe algo fundamental que precisamos compreender quando o assunto é ‘enfrentar o deserto’. O deserto não significa ausência de Deus; pelo contrário, é justamente nesse ambiente que Ele mais se manifesta, revela Sua presença, opera sinais e nos orienta.

A experiência do povo de Israel nos mostra que durante os quarenta anos de travessia, Deus não apenas supriu cada necessidade, mas usou o deserto como um lugar onde o coração foi exposto e moldado.

A Bíblia diz:

‘Lembra-te de todo o caminho pelo qual o Senhor, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos’ (Deuteronômio 8.2).

As palavras e a postura de Davi nos convidam a refletir sobre três perguntas para momentos em que enfrentamos nossos próprios desertos e nos sentimos pressionados, fragilizados ou até mesmo decepcionados:

No deserto, nossa primeira reação costuma ser buscar socorro nas pessoas ao redor, em soluções humanas ou até em nós mesmos. Quando agimos pelas nossas próprias forças e buscamos soluções baseadas na emoção do momento é como tentar guardar água em cisternas rachadas: o esforço será em vão (Jeremias 2.13).

Uma das lições que aprendemos no deserto é depender totalmente de Deus e aguardar pelo sobrenatural. Quando tudo ao redor parece seco e sem vida, Ele é o único que pode saciar a sede da alma.

O deserto revela a quem realmente recorremos quando as circunstâncias nos pressionam.

Muitas vezes, no deserto, nossos desejos se voltam para o que é material, financeiro ou físico. Queremos que a situação mude, que o problema seja resolvido, que o conforto volte.

Naquela travessia árida e com tantos perigos, os hebreus desejavam comida, segurança e o retorno ao Egito.

Davi, no entanto, desejava algo maior: a presença de Deus. Ele não pediu para sair do deserto, mas para encontrar o Senhor naquele lugar, “…eu te busco intensamente” (Salmo 63.1).

O deserto também nos ensina a confiar no maná de hoje, na provisão diária, suficiente e exata de Deus. A graça e as misericórdias do Senhor nos sustentam a cada dia à medida que avançamos e confiamos em Seu amor e presença.

O deserto expõe o que realmente valorizamos.

O maior exemplo de como enfrentar os desertos vem do próprio Jesus. Ele foi tentado no deserto, enfrentou a fome, a solidão e, acima de tudo, as propostas do inimigo. E mesmo assim, permaneceu fiel.

O deserto não é apenas um lugar de sofrimento, mas também de prova e revelação. E, com isso, Jesus nos mostra que a solução para o deserto é permanecer firme na Palavra de Deus e na dependência total do Pai.

Que possamos também transformar nossos desertos em lugares de encontro com Deus, onde a sede da alma é saciada pela água viva que só Ele pode dar.

 “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (João 7.37-38).

Jesus tem a água que sacia a sede da alma e transforma o lugar mais seco em fonte de vida.

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Carlos Barabás
Carlos Barabás
Mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) Especialização em Neurociência e Educação Graduação em Ciências Sociais Formação Teológica Diretor da Lighthouse – Centro de Estudos Multidisciplinares
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