
Gosto de caminhar ao ar livre. Para mim, é muito mais do que exercício; é um modo de reorganizar a vida em silêncio de forma saudável.
Rubem Alves dizia que gostava de levar os olhos para passear, porque eles se encantavam com o que viam pelo caminho. Acho bonita essa ideia de que, ao caminharmos, temos a oportunidade de contemplar o que normalmente passa despercebido em meio à agitação do dia a dia.
Foi durante uma dessas caminhadas que meus olhos encontraram a pequena árvore.
Ela crescia sozinha entre o aço e o concreto, cercada pela dureza da cidade, comprimida entre estruturas que, aparentemente, não foram feitas para sustentar a vida. Ainda assim, ali estava ela: verde, viva, teimando em crescer onde quase tudo parecia ter se tornado duro demais.
Fiquei observando a arvorezinha por alguns instantes. Tirei a foto e continuei a caminhada em silêncio, refletindo: existem pessoas assim, como aquela pequena árvore.
Essas vidas se desenvolvem em ambientes improváveis e continuam crescendo mesmo depois de muitas dores. Não tiveram terreno fértil, cuidado ou sombra, mas ainda assim encontraram forças para permanecer vivas por dentro, em meio a um terreno duro e pouca chances de dar certo.
A pequena árvore não discutia com o concreto. Não reclamava da frieza do aço. Apenas crescia, silenciosa e discreta. Talvez porque a semente verdadeira carregue dentro de si uma estranha insistência em continuar, mesmo entre uma fresta.
Note que a foto registra apenas seus frágeis galhos e folhas. As raízes permanecem invisíveis. E talvez seja exatamente assim com algumas pessoas. Quase ninguém vê aquilo que as sustenta. Não vemos as orações silenciosas, as lágrimas escondidas, as batalhas travadas no íntimo, a fé cultivada em segredo. Vemos apenas o que aparece na superfície.
Essas pessoas, como a pequena árvore, só permanecem verdes porque, em algum lugar profundo, as raízes encontraram água e nutrientes que as supriram em meio à escassez.
A cena da árvore crescendo entre o aço e o concreto, me fez lembrar que a Bíblia está repleta de histórias assim. José floresceu no solo duro da traição e da prisão.1 Davi viveu nos campos esquecidos de Belém antes de se sentar no trono como rei.2 Daniel permaneceu fiel a Deus em meio à frieza e indiferença de um império que desprezava a Deus.3 Jeremias continuou anunciando esperança em meio a uma geração de coração duro como o concreto.4 E o próprio Jesus Cristo, que nasceu em uma manjedoura e cresceu em uma Nazaré desprezada, foi chamado de renovo que brotou de uma terra seca.5
As circunstâncias ao redor não eram favoráveis para nenhum deles, mas havia algo no interior de cada um que o ambiente não conseguiu sufocar.
Talvez seja essa uma das marcas mais silenciosas da graça de Deus: fazer florescer quem o mundo já julgava improvável e sem esperança.
Finalizei minha caminhada com uma verdade no coração: há sementes que carregam dentro de si a insistência do céu.
- Gênesis 37.23–28; 39.20–23; 41.39–45 ↩︎
- 1 Samuel 16.1–13 ↩︎
- Daniel 1.8–20; 6.1–23 ↩︎
- Jeremias 1.4–10; 29.11 ↩︎
- Lucas 2.7; Mateus 2.23; João 1.46; Isaías 53.2 ↩︎
Em Lentes e Linhas, cada imagem captura mais do que simples cenários, são fragmentos de histórias, silêncios e vozes que se entrelaçam nos mais diversos cenários do cotidiano. Com um olhar poético, crítico e significativo, desejo provocar reflexões e convidar os leitores a enxergar além do óbvio, a sentir o pulsar invisível das ruas e avenidas e cenários que minha lente registrou.
Lentes e Linhas; a imagem sustenta o texto e o texto amplia a imagem – Carlos Barabás



